Constituição "Sacrosanctum Concilium" sobre a Sagrada Liturgia
O Sacrossanto Concílio propõe-se estimular sempre mais a vida cristã entre os fiéis, e cuidar de modo especial da reforma e do incremento da Liturgia, pois ela contribui do modo mais excelente para que os fiéis exprimam em suas vidas e aos outros manifestem o mistério de Cristo e a genuína natureza de verdadeira Igreja.
O Sacrossanto Concílio julga que, para a renovação e incremento da Liturgia, devem ser relembrados os princípios e estabelecer as normas práticas que se seguem. Os princípios e normas são referentes ao rito romano, alguns podem e devem se aplicar nos demais.
Obedecendo fielmente à Tradição, o Sacrossanto Concílio declara que a Santa Mãe Igreja considera todos os ritos reconhecidos em igual direito e honra.
Capítulo I: Os princípios gerais da reforma e do incremento de Liturgia
I. A natureza de Sagrada Liturgia e sua importância na vida da Igreja
O Verbo encarnado foi o mediador entre Deus e os homens, e pelo mistério pascal morrendo destruiu a nossa morte e ressuscitando recuperou a nossa vida.
Além do Evangelho, os apóstolos foram enviados para anunciar a obra da salvação através dos sacrifícios e sacramentos, sobre os quais gira toda a vida litúrgica.
Cristo está presente nas ações litúrgicas de Sua Igreja; na missa, tanto no sacerdote quanto nas espécies eucarísticas, na Palavra, nas orações e salmodias. Toda a celebração litúrgica é uma ação sagrada por excelência, por isso, é tida como o exercício da função sacerdotal de Jesus Cristo.
Celebrando a Liturgia Terrena, participamos de antegozo da Liturgia Celeste.
Para que os homens unam-se a Liturgia, é necessário que sejam chamados a fé e a conversão, sendo assim, a Igreja anuncia a salvação aos não crentes para que se convertam e aos que creem que sejam luz do mundo.
A Liturgia é a fonte donde emana a força da Igreja, e é na Eucaristia que é obtida essa força para a santificação dos homens.
Mas para que a Liturgia seja eficaz, é necessário reta intenção e conhecimento de causa por parte dos fiéis.
O cristão não deve limitar sua vida espiritual somente na participação da Sagrada Liturgia é preciso orar sem cessar, fazer da vida uma oração.
Os exercícios piedosos devem condizer com a Sagrada Liturgia e dela de alguma forma derivem.
II- Necessidade de promover a educação litúrgica e a ativa participação
Por força do Batismo, o povo cristão tem direito e obrigação de participar ativamente das celebrações litúrgicas.
Os professores escolhidos para lecionar a disciplina de Sagrada Escritura devem ser formados em estabelecimentos específicos.
A disciplina da Sagrada Liturgia deve estar entre as matérias mais importantes nos seminários e casas religiosas de estudos. Esses lugares devem ser profundamente impregnados do espírito litúrgico para que se entenda as cerimônias e nelas participem de todo o coração.
Os sacerdotes tem a missão de, que os fiéis a eles confiados, participem e vivam a vida litúrgica. Por isso, cabe a eles dar a instrução litúrgica e conduzir seu rebanho não só pela palavra mas também pelo exemplo.
Caso a Santa Missa seja transmitida por rádio ou televisão, fazer com discrição e decoro.
III- Reforma da Sagrada Liturgia
A Liturgia consta de uma parte imutável, divinamente instituída, e de partes suscetíveis de mudança. Com a reforma, o texto e as cerimônias devem exprimir mais claramente as coisas santas que significam e o cristão possam compreendê-las e participar ativamente.
a) Normas Gerais
A regulamentação da Sagrada Liturgia é de competência exclusiva da Autoridade da Igreja.
A tradição deve ser conservada, por isso é necessário cuidadosas investigações acerca das partes da Liturgia a serem reformadas.
É de suma importância a promoção do afeto pela Sagrada Escritura, pois ela é a inspiração de vários atos e sinais.
b) Normas tiradas da índole da Liturgia como ação hierárquica e comunitária
As ações litúrgicas pertencem a todo o Corpo da Igreja, mas atinge cada um dos membros conforme a diversidade de ordens, ofícios, da participação atual. Sempre que possível, é preferível a celebração comunitária com a participação dos fiéis do que uma privada.
Sendo que, cada ministro ou fiel deve desempenhar somente a função que lhe foi confiada, com piedade e instrução.
Deve-se também incentivar os fiéis nas ações, gestos, porte do corpo e sagrado silêncio. E cuidar atentamente para que as rubricas dos livros litúrgicos contenham as partes dos fiéis. Não pode haver na Liturgia a distinção de pessoas.
c) Normas Litúrgicas da índole didática e pastoral
Quando o sacerdote na celebração ora a Deus, são rezadas em nome de todos os presentes, alimentando-os na fé e despertando-os para Deus.
As cerimônias devem ser simples, breves, e sem repetições inúteis para facilitar a compreensão dos fiéis.
Para que apareça claramente a conexão entre cerimônia e palavras, o ministério da pregação abrangerá temas da Sagrada Escritura e da Liturgia, a Catequese Litúrgica com breves comentários, e a Celebração da Palavra onde falta padre.
Que seja conservado o uso da língua latina nos ritos latinos. Pode ser usado a língua vernácula desde que sua tradução do texto latino seja aprovado pela competente Autoridade Territorial.
d) Normas para conseguir a adaptação à mentalidade e às tradições dos povos
A Liturgia não é algo imposto, por isso, desde que a cultura local não esteja ligada a superstições e erros, a Igreja examina com benevolência e se possível conserva intacto.
Há uma adaptação segundo as necessidades dos lugares, mas é limitada conforme determinar as Autoridades Territoriais Eclesiásticas.
HISTÓRIA DO ANO LITÚRGICO
O ano litúrgico pode ser descrito como o conjunto das celebrações com que a Igreja celebra anualmente o mistério de Cristo. Sua história comprova que ele não é um fato meramente organizativo do tempo, em vista da distribuição funcional das festas cristãs, no decurso do ano. Com isso queremos dizer, que o ano litúrgico não surgiu obedecendo a um plano concebido de modo orgânico e sistemático, mas é fruto principalmente de uma reflexão teológica sobre o tempo.
Com efeito, a liturgia da Igreja deve ser considerada como um momento da história salvífica. Neste sentido, o ano litúrgico ou tempo litúrgico é continuação do tempo bíblico ou histórico salvífico, no qual sucederam os eventos da salvação; as celebrações do ano litúrgico tornam eficaz no presente, a realidade salvífica de tais eventos.
1-O TEMPO NAS CULTURAS ARCAICAS;
Chamamos de tempo cósmico, aquela dimensão do universo com o qual se mede o perdurar das coisas mutáveis, ou também a sucessão rítmica das fases em que se processa o devir da natureza. É o tempo dos calendários, divididos em meses, semanas e dias. É um tempo neutro, é algo objetivo, independente do homem. Os rítmos do tempo cósmico são percebidos pelo homem primitivo, antes que ele o transforme em objeto de uma verdadeira reflexão filosófica, como o receptáculo das vicissitudes da sua vida pessoal, familiar e social e, desta forma, surge o tempo histórico.
A própria razão da religião é uma tomada de consciência diante do tempo histórico. Todas as antigas religiões, conferem ao tempo cósmico um caráter sagrado: os dias, os meses e as estações assumem um valor religioso, pois são sinais nos quais se revela e mostra a divindade. Essa sacralização mística faz com que se estabeleça o calendário das festas, que seguem precisamente o rítmo das estações e dos meses.
Existe um tempo puro, primordial que é por princípio, o tempo repetível. Na festa se ritualiza o tempo original e se regenera o tempo cotidiano. Essa concepção cíclica do tempo parece ligado à cultura dos agricultores, na qual a experiência direta dos rítmos cíclicos de produção e da sua renovação anual, teria sido transferida a uma rotatividade de todo o tempo. A lei dominantes é a do eterno retorno segundo o qual, os mesmos eventos se reproduzem eternamente.
Os autores sublinham que essa consciência cíclica do tempo, é característica particular das civilizações orientais e grega. O tempo cíclico, torna-se na verdade sinônimo de uma rotação sem sentido. Nessa concepção, a história do mundo é vazia, porque não se baseia numa plenitude absoluta e não mede a vida real, o progresso de uma humanidade a caminho. É uma história sem esperança porque, sendo uma realidade cíclica fechada no cíclo eterno dos astros, recomeça sempre, sem jamais cumprir-se definitivamente. Se o homem busca a salvação, não pode achá-la senão fora do tempo, na fuga e na libertação do círculo eterno, que o amarra à fatalidade. Na imposição cíclica, pode-se representar o tempo como um grande disco, dentro do qual o homem prisioneiro e no qual, monotonamente, vive eventos repetitivos.
II-O TEMPO NA BÍBLIA:
Não existe apenas uma concepção bíblica do tempo, mas o Antigo Testamento conhece diversas. A visão veterotestamentária do tempo, se sobrepõem dois aspectos: um, regulado pelos ciclos da natureza (tempo cósmico) e outro que se desenrola no fluxo dos acontecimentos (tempo histórico). Deus os governa do mesmo modo e os orienta juntamente para um mesmo fim (tempo salvífico). Foi principalmente a visão profética que deu à narração histórica a sua unidade, revelando um comportamento divino que, partindo primeiro momento criativo de Deus, vai efetuando ao longo do percurso da história, o desígnio de salvação, que o amor de Deus concebeu desde a eternidade.
Novo Testamento tem uma concepção perfeitamente linear do tempo: ontem, hoje, amanhã. Neste contexto, torna-se possível e compreensível a realização progressiva e completa do plano salvífico divino. O evento decisivo desse plano é Cristo, que dá cumprimento ao tempo veterotestamentário (Mc 1,15) e se propõe como realidade central e predeterminante do tempo posterior a ele: Cristo é o Alfa e o Ômega, o Primeiro e o último, o Princípio e o Fim da história (Ap 22,1).
A interpretação neotestamentária do tempo, ressalta o fato de que a história não está submetida à lei do retorno cíclico do tempo cósmico, mas é orientada fundamentalmente pelo desígnio de Deus, que mela se realiza e se manifesta. Uma linha reta traça o caminho da humanidade, desde o primeiro momento criativo de Deus, até a plena e definitiva realização da redenção, no final dos tempos. (Ef 1,3-14).
III-AS FESTAS DA IGREJA:
O ponto central referente ao tempo e à festa no Novo testamento, vem a ser a dinâmica que se encontra no evento Cristo, entre o já realizado e o ainda não completamente cumprido. O sacrifício de Cristo é oferecido uma só vez, isto é, todo de uma vez e uma vez por todas, distinguindo-se de tal forma dos sacrifícios da antiga aliança, repetido indefinidamente. O tempo salvífico se cumpriu em Cristo. Ele inaugurou o ano da graça do Senhor anunciado pelo profeta Isaias (Lc 4,21). Para o cristão, é festa não em um dia particular da semana, mas toda a sua vida, inaugurada pelo evento pascal...Porém, a plenitude deste mistério, precisa ser desdobrada e recebida em cada uma de sua parte.
O traçado da história da salvação, contido na Bíblia, é vivido na liturgia; ela propõe um comentário vivo da Bíblia em toda a plenitude do seu significado, comentário este que se articula em etapas salvíficas, que são o desdobramento orgânico da memória dos mistérios de Cristo, que se conjugam no único mistério pascal.
IV-O ANO LITÚRGICO É O MISTÉRIO DE CRISTO:
O tempo litúrgico, caracterizado pela circularidade própria do ano cósmico, faz a síntese da história da salvação, mas não a encerra no seu círculo. A circularidade do ano litúrgico, prende-se mais a um conceito de ano, entendido como uma sequência de pontos na linha temporal da história da salvação, isto é, um momento do grande ano da redenção, inaugurado por Cristo (Lc 4,19-21).
Portanto, o ano litúrgico não deve ser confundido como o eterno, fatalístico retorno das estações; é um tempo que se repete, como uma espiral progressiva, e vai em direção à parusia. O ano litúrgico é uma estrutura ritual, na qual a totalidade da história da salvação, a saber, o evento Cristo, nas suas diversas projeções temporais de passado-presente-futuro, se atualiza no tempo determinado de uma concreta assembléia eclasial e no espaço de um ano.
A repetição das celebrações, ano após ano, oferece à Igreja a oportunidade de um contínuo e ininterrupto contato com os mistérios do Senhor: como uma estrada que corre serpenteando ao redor de um monte, com o objetivo de poder atingir pouco a pouco, em subida gradual o escarpado pico, assim também nós devemos fazer de novo num plano mais elevado a mesma caminhada, enquanto não se atingir o ponto final, que é o próprio Cristo, nossa meta.
O mistério de Cristo torna-se a vida da Igreja, e a Igreja por sua vez, prolonga e completa o mistério de Cristo.
V-O ANO LITÚRGICO E A SACROSANCTUM CONCILIUM:
A Santa Mãe Igreja, julga ser do seu dever celebrar em certos dias no decurso do ano com piedosa recordação, a obra salvífica de seu divino Esposo. Em cada semana, no dia que ela chamou Domingo, comemora a Ressurreição do Senhor, celebrando-a uma vez também na solenidade máxima da Páscoa, juntamente com sua sagrada Paixão. No decorrer do ano, revela todo o Mistério de Cristo, desde a Encarnação e a Natividade, até a Ascensão, o Dia de Pentecostes e a expectação da feliz esperança e vinda do Senhor.
Relembrando os Mistérios da Redenção, franqueia aos fiéis as riquezas do poder santificador e dos mérito de seu Senhor, de tal sorte que de alguma forma, os torna presentes em todo o tempo, para que os fiéis entrem em contato com eles e sejam repletos da graça da salvação...
Enfim, nos vários tempos do ano, segundo as instituições tradicionais, a Igreja aperfeiçoa a formação dos fiéis por piedosos exercícios da alma e do corpo, pela instrução, pela oração e pelas obras de penitência e misericórdia...




Pe. Luiz Fabiano Reginato
Pároco da Catedral São José
Pe. Vicente de Paulo Félix da Silva
Vigário Paroquial da Catedral São José




